Passaporte para a História

Passaporte para a História

Este blog destina-se as pessoas que querem aprofundar os seus conhecimentos em História e desejam recursos midiáticos para tal finalidade.

Aproveitem o blog e ampliem os seus conhecimentos.

Um abraço fraterno !

André Luiz.

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sábado, 11 de setembro de 2010

Revista : Aventuras na História.

O mundo em 1808
Enquanto Napoleão guerreava e dom João fugia, a Inglaterra ampliava seus domínios. Arte e ciência também davam grandes passos
por Felipe Van Deursen
Américas

Estados Unidos proíbem importação de escravos

Entre 1769 e o dia 1º de janeiro de 1808, cerca de 500 mil negros foram levados aos Estados Unidos como escravos. A partir dessa data, não seria mais permitido desembarcar nos portos do país com a “mercadoria”. Os ideais da Revolução Americana inspiraram a maioria dos estados a banir o tráfico, exceto Carolina do Sul e Geórgia, mais dependentes da mão-de-obra escrava. Na constituinte de 1787, o assunto gerou polêmica e, depois de os Estados do sul terem ganhado mais representação no Congresso Nacional, um pacto foi firmado para que, até 1808, a importação de escravos fosse banida. A abolição da escravatura ocorreu somente em 1865, com o fim da Guerra Civil americana, que opôs os estados do sul (escravagistas) aos do norte (abolicionistas).

Começa o processo de independência na América Espanhola

Nas colônias da Espanha, o ano foi marcado pela atuação das juntas regionais, criadas para representar o rei. Fernando VII, que havia assumido em março, foi deposto em maio por Napoleão Bonaparte, fato que gerou uma conseqüente perda de controle da metrópole sobre as colônias americanas. A resistência na Espanha ao domínio francês – representada por um comitê, a Junta Central – não tinha legitimidade na América, levando à criação das juntas regionais. A primeira delas surgiu em setembro, em Montevidéu, no Uruguai.

Ásia

Navio inglês invade porto de Nagasaki

No dia 14 de outubro de 1808, a fragata britânica HMS Phaeton invadiu porto de Nagasaki, no Japão. A cidade, até 1859, era a única em território japonês aberta a transações internacionais, mas apenas com a Holanda. Para entrar na baía de Nagasaki, os ingleses usaram uma bandeira holandesa. Fizeram reféns e exigiram mantimentos pela liberdade deles. Depois de dois dias, os invasores foram embora. Após o incidente, o Japão passou a investir na defesa da costa.

Britânicos tentam ocupar Macau

A península chinesa de Macau, que por quatro séculos esteve sob domínio de Portugal, foi invadida pela Marinha britânica. Em função de sua posição estratégica, Macau desempenhava um importante papel nas rotas comerciais na Ásia e, por isso, foi muitas vezes assediado pelas potências européias. Os britânicos já tinham tentado conquistar a península em 1802, sem sucesso. O fracasso repetiu-se em 1808.

Europa

Rússia invade a Finlândia

Alexandre I, czar da Rússia, invadiu a Finlândia no fim de fevereiro. O país escandinavo foi disputado durante séculos por russos e suecos. Oitenta e sete anos antes, em 1721, a Suécia cedeu aos rivais a província de Vyborg. Até que, em 1809, a Finlândia foi oficialmente anexada ao território russo. O país só conquistou sua independência em 1917.

Beethoven apresenta quinta sinfonia

Ludwig van Beethoven regeu pessoalmente a estréia da Quinta Sinfonia ou Sinfonia do Destino, no dia 22 de dezembro de 1808, em Viena, na Áustria. A recepção àquela que se tornaria uma das mais populares – senão a mais – composições da história foi morna. O compositor alemão havia criado algo revolucionário: sem entrada lenta e sem fanfarra inicial. Apenas quatro notas e a música ocidental mudou para sempre.

Goethe publica Fausto

Em 1808, Wolfgang von Goethe publicou a primeira parte do poema Fausto. Famoso mito alemão, Fausto é um sábio que vende a própria alma ao demônio Mefistófeles, em troca de poder e mais conhecimento. A história já era conhecida na Alemanha com o livro Faustbuch (O Livro de Fausto), de autor desconhecido e publicado no século 16. Nessa versão, o sábio vai ao inferno na cena final. Na concepção de Goethe, ele é salvo por anjos que o levam para o céu.

Cientista descobre cinco elementos químicos

Após ter descoberto o sódio e o potássio, em 1807, o químico inglês Humphry Davy descobriu no ano seguinte mais cinco elementos químicos: cálcio, boro, magnésio, estrôncio e bário. Baseado em experimentos com eletrólise (processo químico provocado por eletricidade), Davy sugeriu que ela seria muito útil na indústria. O cientista, agraciado com os títulos de cavaleiro britânico e barão, também fez grandes contribuições para a agricultura e a mineralogia.

Oceania

Rebelião do rum na Austrália

Uma insurreição militar estourou na Austrália quando o governador de Nova Gales do Sul, William Bligh, foi deposto pelo comandante das tropas locais, George Johnston. O conflito ocorreu como resultado das tentativas de diversos governadores em restringir os privilégios econômicos dos militares, baseados nos negócios de bebidas alcoólicas deles. Por isso, o episódio ficou conhecido como Rebelião do Rum.

África

Serra Leoa torna-se colônia britânica

Descoberto por portugueses no século 15, Serra Leoa virou colônia britânica em 1808. Vinte e um anos antes, em 1787, abolicionistas ingleses instalaram um porto por lá, onde hoje é a capital do país, Freetown. Com a declaração de ilegalidade do comércio negreiro pelo Parlamento inglês, a base transformou-se em centro de operações contra o tráfico, aumentando a presença britânica naquela região. A independência de Serra Leoa só veio em 1961.

fonte: http://historia.abril.com.br/home/

Revista Aventuras na História.

Passaporte
Viagens ao exterior só eram autorizadas por salvo-condutos emitidos pelos reis
por Maria Carolina Cristianini

Dá um certo trabalho, mas tirar passaporte é uma atividade muito comum. Todos os dias, só no Brasil, são emitidos 5 mil documentos que autorizam pessoas a viajar para o exterior. Nem sempre foi assim. Embora documentos para viajar, chamados de salvo-condutos, existam há tempos, na Antiguidade era preciso autorização de soberanos para conseguir um. Um dos primeiros registros dessa prática está na Bíblia, no Livro de Neemias. No texto, datado de cerca de 450 a.C., Neemias pede ao rei persa Artaxerxes I cartas de apresentação que lhe dessem segurança para ir até Judá. Já na Roma antiga, só quem estava em missão oficial recebia o documento. E entrar no império também era difícil. “Pessoas de fora só eram admitidas se justificassem a vinda e passassem por uma vistoria dos soldados”, diz o historiador Pedro Paulo Funari, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Durante a Idade Média, só era permitido transitar entre os diferentes territórios com autorização do senhor feudal. Apenas no século 16, o termo passaporte, que significa passar por um porto ou portão, começou a ser usado em permissões de viagem dadas a emissários de governos. No século 19, a melhoria nos transportes, trazida pela Revolução Industrial, fez aumentar o número de viagens e a emissão de passaportes. Para facilitar a identificação, na falta da foto, que só apareceria nos documentos a partir do começo do século 20, os britânicos incluíam descrições físicas, como o tamanho do nariz.

Até então, o passaporte abria caminhos, mas não era obrigatório. A fiscalização só cresceu com o aumento da imigração, entre o fim do século 19 e o começo do 20, quando vários países, como os Estados Unidos, passaram a exigir documentação de estrangeiros. Na Primeira Guerra Mundial, tal controle se tornou uma necessidade militar para a segurança dos países. Terminado o conflito, a Liga das Nações fez, na década de 1920, duas conferências para padronização do passaporte. Foi quando o documento ganhou o formato atual.

fonte :http://historia.abril.com.br/cotidiano/conteudo_586866.shtml

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

História do Brasil

Pacifismo político
Apesar de generalizada, a violência na política é relativamente baixa no Brasil, segundo José Murilo de Carvalho e Marcos Bretas, que participaram do debate do Biblioteca Fazendo História.
Adriano Belisário

Naturalizados para muitos, os atos de violência passaram ao largo da vida política do país. É bem verdade que não faltaram atentados contra importantes governantes em nossa história. Porém, em comparação com outros países, as estatísticas apontam que o Brasil é realmente um país pacífico. Ao menos com seus mandatários.

Tema da edição do mês da Revista de História, os crimes políticos brasileiros foram analisados pelos historiadores José Murilo e Marcos Bretas no debate do projeto Biblioteca Fazendo História, no dia 17 de agosto. "Temos uma violência endêmica. Porém, quando chega na esfera política, nossas estatísticas são muito diferentes daquelas de outras nações. Os Estados Unidos, por exemplo, mataram quatro e fizeram mais de vinte atentados contra presidentes. Alguma coisa lá funciona diferente", sentenciou Murilo.

Segundo ele, algumas explicações podem ser apresentadas para tal fato: a) incompetência na hora de acertar o alvo; b) reverência pelo poder; c) pragmatismo para evitar problemas criminais; d) pacifismo, por não levar a violência exercida fora da política para dentro dela; e) hierarquia social, "pois no Brasil não se mata para cima, só para baixo e na horizontal".

Deixando a cargo dos ouvintes escolher a melhor opção, José Murilo também mostrou que nem tudo são flores e trouxe à tona alguns episódios sangrentos de nossa história. "As revoltas regenciais eram muito violentas. Na Cabanagem, por exemplo, morreram 30 mil pessoas. Isso em uma província com 200 mil habitantes. As insurgências em Pernambuco e na Bahia também se destacaram pela violência. Não brinquem com esses brasileiros", disse o sucessor de Rachel de Queiroz na Academia Brasileira de Letras.

Marcos Bretas começou sua explanação diferenciando crimes políticos dos usuais. Apoiando-se em uma definição do sociólogo francês Roland Barthes, o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro afirmou que "enquanto o crime comum se explica isoladamente, por si mesmo, o crime político é parte de uma estratégia maior". Bretas mencionou ainda a ação de alguns movimentos anarquistas do século XIX para exemplificar as motivações de um crime político. "Naquela época, a violência aparecia em nome de um ideal. Alguém se convencia que estaria fazendo um bem para o país livrando-o de um político importante e que, para acordar as pessoas, nada melhor do que uma boa bomba", brincou.

Segundo Bretas, porém, não há lado bom possível no uso da violência. O historiador destaca como o abuso da força é visto de maneira desigual, citando o caso do assaltante de bancos conhecido como Mineirinho, morto pela polícia com treze tiros de metralhadora em 1962. "A repercussão da imprensa na época foi semelhante aos discursos de hoje: matar bandido pode, só não vale exagerar. Por isso, a emergência do discurso dos direitos humanos é fundamental. Ninguém pode ser tratado desta maneira", criticou.

De acordo, José Murilo acrescentou que, apesar dos avanços, as delegacias de polícia são lugares onde sistematicamente não se respeita pessoas de classes sociais mais baixas. Para ele, a reação contra a violência do Estado ganhou força a partir da Era Vargas, quando o governo passou a incluir intelectuais e políticos na lista de torturados. Já no governo militar, Murilo lembrou que os opositores do regime também protoganizaram momentos de violência, como no caso das guerrilhas armadas. Porém, em relação aos torturadores do governo, o historiador considera difícil superar a impunidade pelos crimes cometidos porque “muitos dos beneficiados por aquele governo ainda estão no poder hoje”.

Apesar do relativo pacifismo político do povo brasileiro, Murilo lembrou de três casos nos quais os crimes políticos mudaram a história do país: a morte de João Pessoa e Pinheiro Machado, além do atentado contra Carlos Lacerda. “Estes casos geraram uma inversão de expectativas interessante. Foram situações onde um defunto reverteu todo quadro político do país”, afirmou.

Respondendo as perguntas do público, apesar da seriedade do assunto, Bretas contou uma piada que serve bem para a reflexão sobre a postura do Brasil diante do uso extremo da força. “Foi feita uma missão com vários países do mundo para localizar um coelho. A polícia inglesa botou vários soldados procurando o animal e localizou o animal em uma hora. Os americanos usaram satélites e alta tecnologia e conseguiram capturar o coelho em trinta minutos. Já os brasileiros apenas entraram em uma sala fechada. Depois de quinze minutos, sai um sujeito todo arrebentado dizendo: - Eu sou o coelho! Eu sou o coelho!”.

História dos Óvnis no Brasil

Óvnis revelados
Aeronáutica divulga mais uma leva de documentos sobre incidentes com óvnis brasileiros. Os relatos dos objetos desaparecidos desta vez são referentes aos anos 90.
Monique Cardone

Casos de aparições de Objetos Voadores Não-Identificados (óvnis) em cidades brasileiras integram os arquivos da Aeronáutica que foram recentemente entregues a Coordenação-Regional do Arquivo Nacional no Distrito Federal. O conteúdo de 793 páginas conta com relatos de pilotos, civis e militares que dizem ter presenciado situações anormais nos anos 90. Será mais um capítulo da polêmica discussão sobre a existência de seres extraterrestres?

O material, que era confidencial, já aguçava o imaginário das pessoas e provocava debates entre crédulos e céticos antes mesmo de serem divulgados. Dentre os acontecimentos relatados, o que mais chama a atenção é o de 20 de março de 1996, no qual há registros de sete testemunhas que presenciaram objetos estranhos no céu, em cinco cidades do Rio Grande do Sul.

Uma portaria da Força Aérea Brasileira publicada no início de agosto no Diário Oficial da União determina como devem ser registrados e arquivados os relatos sobre os chamados óvnis. De acordo com a Aeronáutica, documentos relacionados a esse assunto não serão mais sigilosos, e sim entregues regularmente ao Arquivo Nacional – ainda faltam liberar os arquivos dos anos 2000.

Em artigo publicado na Revista de História da Biblioteca Nacional, Rodrigo Moura Visoni, arquivista da Aeronáutica, afirmou que relatos de óvnis existem há milênios. Mas a hipótese desses fenômenos estarem relacionados a espaçonaves pilotadas por seres alienígenas só surgiu no final do século XIX, com o progresso da astronomia e a popularização de livros de ficção científica.

“No século XX, as hipotéticas naves extraterrestres tornaram-se realmente populares: o rápido desenvolvimento da astronáutica ocasionado pela Guerra Fria com o lançamento dos primeiros satélites artificiais e a criação de veículos espaciais mostrava que viagens interplanetárias eram uma ideia viável. Se o ser humano podia viajar pelo espaço, seres espaciais também poderiam visitar a Terra”, explicou Visoni.

Para o ufólogo Alberto Francisco do Carmo, o que mais preocupa na revelação desses arquivos é a falta de ousadia decisiva para se estudar o fenômeno. “De fato, se estiverem exibindo tudo que têm, vê-se que durante todo este tempo houve apenas registro burocrático de dados. A única força aérea de outra parte do mundo que se aprofundou no assunto, curiosamente outra "FAB", foi a Força Aérea da Bélgica, que ousou admitir a presença de óvnis e até se associou a bons ufólogos locais.O resultado foram dois dossiês maçudos”, afirmou o ufólogo.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Robin Hood

Em busca de Robin Hood
Como surgiu e prospera a lenda medieval que ainda inspira superproduções no cinema? O contexto histórico explica. Em mais de 600 anos, o fora da lei já foi identificado como bandido cruel, nobre renegado, templário e homossexual
por Fernando Duarte
Num bosque particular junto à mansão Kirklees, em Dewsbury, no condado britânico de Yorkshire, os visitantes deparam com um monumento alquebrado: protegida por um cercadinho de ferro, a lápide contém um epitáfio de causar taquicardia nos interessados:

"Aqui, sob esta pedra,/ Jaz Robert, barão de Huntingtun/ Nenhum arqueiro foi tão bom quanto ele/ Chamavam-no de Robin Hood/ Fora da lei como ele e seus homens/ A Inglaterra jamais verá outra vez"

A fama do bandido benfeitor prospera desde meados do século 14, a partir de poemas, baladas e contos. Robin promovia uma campanha de roubos espetaculares a viajantes na floresta de Sherwood, em Nottingham (no condado vizinho a Yorkshire), e repartia o butim com os mais pobres, desafiando a autoridade do príncipe e depois rei João I (um dos mais controversos monarcas ingleses, que comandou a nação entre 1199 e 1216) e a do tirânico xerife local. Mas os turistas que fotografam o túmulo do arqueiro (gravado em inglês arcaico e datado de 1247) só podem estar certos de levar para casa o suvenir e uma suposição. A lápide foi erguida no século 18, baseada no marco construído no ponto onde teria caído a última flecha disparada pelo herói agonizante, vítima da traição da prima, madre superiora do antigo convento de Kirklees.

Uma versão da trama é narrada em As Aventuras de Robin Hood (1883), escrito e ilustrado por Howard Pyle. Doente, o arqueiro procurou tratamento médico contra uma febre persistente. A freira, porém, aplicou-lhe uma sangria fatal, interessada em agradar ao rei... João. Como assim? O monarca não morreu em 1216, três décadas antes? Sim, morreu, e de forma bem pior que seu arqui-inimigo: definhou com disenteria.

Além do bosque em Dewsbury, há várias teses distintas sobre o local da sepultura, a terra natal ou a real identidade de Robin. É por essas e muitas outras que rastrear as pegadas do fora da lei mais amado da literatura pode ser um feito comparável a suas incríveis e ousadas peripécias.

Mais de meio milênio após as primeiras citações conhecidas a seu nome, é inegável o fascínio que Robin Hood ainda provoca. Seja como metáfora para identificar medidas de redistribuição de renda (a exemplo da pretendida taxação sobre transações financeiras internacionais para abastecer países subdesenvolvidos, o imposto Robin Hood), seja para apelidar iniciativas de banditismo social, como a do hacker da Letônia que, em fevereiro, vazou informações sobre os valores dos bônus pagos a executivos de seu país. Ou seja ainda porque a lenda volta às telas em maio, com Russell Crowe como protagonista e direção de Riddley Scott. O filme se junta a uma lista que ultrapassa 80 produções para cinema e TV baseadas nas vidas supostas e imaginárias do herói. Vidas paralelas que - esqueça as leis da geometria - muitas vezes se cruzam.

O homem e a lenda

As primeiras pistas sobre o arqueiro indicam que seu nome, originalmente, referia-se mais a um arquétipo que a um sujeito em especial. Segundo o historiador James Clarke Holt, um dos maiores especialistas no medievo britânico, variações como "Robehod", "Hobehod", ou "Robert Hod, fugitivo" aparecem nos registros legais de algumas comunidades inglesas, em diferentes partes do país, já na primeira metade do século 13. Holt sustenta que isso indicaria o uso da figura para descrever comportamento criminal. Num desses registros, na documentação de Yorkshire referente a 1225/1226, Robert Hod é identificado como um inquilino do arcebispo de York, a quem devia dinheiro.

Na literatura, Robin foi citado inicialmente em 1377, no poema Piers Plowman, de William Langland. Trata-se de menção curta. Ele só vira protagonista na balada Robin Hood and the Monk ("Robin Hood e o monge"), de 1450, já com o xerife de Nottingham como rival imediato e ambientada em Sherwood. O primeiro registro impresso preservado data de 1475: a coleção de histórias The Adventures of Robyn Hode ("As aventuras de Robyn Hode"), que delineia seu comportamento heroico. Nas contas das crônicas medievais, da tradição oral e escrita, o bando do arqueiro tinha um efetivo de 20 a 140 homens, com destaque para João Pequeno (seu mais fiel companheiro, de quase 2 metros de altura) e o frei Tuck, um padre bonachão e rebelde. O grupo foi se juntando aos poucos. Ele próprio, segundo uma das versões recorrentes, caiu na contravenção quase por acaso. Aos 18 anos, saiu da cidade natal de Loxsley para atender a um concurso de arco e flecha promovido pelo xerife de Nottingham. O prêmio: um barril de cerveja. Eis que na trilha encontrou 15 guardas florestais comendo e bebendo. "Ora, moleque, o leite da tua mãe mal secou em teus lábios e queres te colocar com arqueiros valentes nos campos de Nottingham, tu, que mal és capaz de esticar a corda de um arco de dois tostões?" À provocação do guarda, ele respondeu com um desafio. Receberia 20 moedas se acertasse um cervo a mais de 250 metros de distância. Os oficiais aceitaram a aposta e, estupefatos, assistiram-no atingir o alvo. O mais ébrio do destacamento, porém, se recusou a quitar a dívida e tentou eliminar Robin com uma flechada pelas costas. Ele respondeu com outra, esta mortal. A partir daí, aplicava sua própria lei na floresta. Bom, isso segundo a narrativa adocicada de Howard Pyle do fim do século 19. Em textos anteriores, não sobra um guarda sequer para contar a história.

Nas antigas descrições, Robin aparece ora ao lado dos comparsas, ora sozinho na mata. Varia de comportamento e tática, alternando-se entre bandido cruel (capaz de decapitar os inimigos e exibir as cabeças como troféus) e astuto. Para Stephen Knight, historiador da Universidade de Cardiff, há sentido por trás dessas contradições. "Quando falamos em Robin Hood, não estamos nos referindo apenas a um homem, mas sim a mais de 600 anos de desenvolvimento de conceitos e sentimentos. Ele representa ideais utópicos de justiça e liberdade. É uma construção social, um mito. Inventado e reinventado ao longo dos séculos", diz o autor de Robin Hood: a Mythic Biography ("Robin Hood: uma biografia mítica"). As narrativas que pintam o arqueiro mais agressivo são resultado de um contexto social turbulento. A Inglaterra do século 14 é marcada pela devastação causada pela Peste Negra e pelo ônus da Guerra dos Cem anos contra a França. Havia ainda tensões internas devido ao crescente descontentamento com as condições de servidão feudal, o que resultaria na Revolta dos Camponeses (1381), principal insurreição inglesa. O estopim foi a criação de um novo imposto de 5 centavos de moeda por cabeça.

No século 16, porém, o perfil de Robin passa por uma espécie de suavização. Ele aparece nas crônicas como um nobre (barão) desterrado e renegado defendendo o poder de Ricardo Coração de Leão (que reinou entre 1189 e 1199) do usurpador príncipe João (quando seguiu para lutar na Terceira Cruzada, Ricardo deixou o irmão no comando de condados como Nottinghamshire). O arqueiro vira um bandido conservador - vítima dos abusos do xerife local e do príncipe, que lhe cassaram direitos -, que defendia a estrutura tradicional de poder. "A partir do século 17 surgem representações intercaladas e mesmo versões com um Robin pós-Reforma, inimigo da Igreja. O mais interessante é que ele se tornara um símbolo em momentos de opressão popular promovidos por reis absolutistas e nobres inescrupulosos ou resultado das agruras do capitalismo", afirma Knight.

A fama do arqueiro, inclusive, parece proporcional ao descontentamento do povo. Thomas Hahn, professor da Universidade de Rochester e um dos fundadores da Associação Internacional de Estudos sobre Robin Hood, insiste que a popularidade do personagem cresce no mesmo ritmo que a frustração da massa com a vida na sociedade capitalista. A lenda, diz ele, passa por um boom nos séculos 16 e 17, nos primórdios do sistema de acumulação de capitais. A difusão da imprensa de Gutenberg ajuda a alimentar o fenômeno: em 1601, havia pelo menos 200 menções ao fora da lei em poemas, contos e peças.

Nesse período, os agricultores enfrentavam o "fechamento" dos campos, cercados para reforçar a produção de lã, que se transformara no principal produto exportado pelos ingleses - e que formaria os alicerces da Revolução Industrial, em meados do século 18. Uma horda de sem-terra se misturava com outra sofrendo com o aumento dos aluguéis rurais, o que levou a uma série de minirrevoltas agrárias justamente nos séculos 16 e 17.

Patriota

Cada conto aumentou um ponto ao longo de muito tempo. A inclusão de Lady Marian, por exemplo, a amada do arqueiro, é tardia. Ela surge em antologias de cantigas populares publicadas por volta de 1750, na forma de uma espadachim valente, e não da dama submissa da literatura do período vitoriano. Também no século 19, Robin Hood ganha contornos patrióticos. Torna-se personagem de Ivanhoé (1819), metido nas birras entre saxões e normandos (pendendo para a tradição anglo-saxônica) na trama ambientada no fim do século 12. O romance do escocês Walter Scott reacendeu o interesse dos britânicos pelo período e criou uma "nova vida" para o arqueiro. "O apelo de Robin Hood vem de desejos primários por justiça e igualdade. Embora tal utopia tenha origens na Idade Média, ela é ampla e profunda o suficiente para povoar a imaginação de indivíduos de todas as épocas e lugares. No geral, ela representa posições anti-hierárquicas. É uma fantasia baseada no escapismo", diz Hahn.

De volta às origens, então. Na Inglaterra medieval, era melhor sonhar que cumprir as árduas e longas jornadas de trabalho no campo. Havia ainda os caprichos dos senhores feudais ou do soberano da vez (somadas as citações e referências históricas, o fora da lei teria atuado sob pelo menos cinco monarcas diferentes). Entre todos, a personificação do mal é João I. Não só porque tentou puxar o tapete do irmão. Sofreu derrotas militares e se envolveu numa desastrada queda de braço com Roma, o que resultou em prejuízos financeiros compensados com aumentos de impostos. Já o protótipo de rei justo, por quem Robin a certa altura admite até abandonar a marginalidade (e lutar na cruzada), é Ricardo I. Mas, na verdade, ele tentou destronar o pai e nem inglês falava.

Por si sós as florestas tentavam a imaginação popular. Estavam legalmente reservadas às caçadas da realeza. A punição para invasores incluía castigos como mutilações. Bastava ser flagrado perto de animais. Natural, então, que houvesse extremo ressentimento contra o código florestal e certa adoração àqueles capazes de burlar o sistema. As matas, claro, eram refúgio preferencial de bandidos.

Estudiosos encontram fontes de inspiração para o arqueiro nas histórias de alguns fora da lei e figuras históricas (veja a partir da pág. 30) como William Wallace, herói escocês, ex-proprietário de terras que seria um dos líderes da 1a Guerra de Independência (1296-1328). Há comparações desde o século 15. "São semelhanças fabulosas. Wallace e Robin, por exemplo, vestem-se de mulher para escapar dos inimigos numa de suas aventuras. Ambos roubavam e matavam nas estradas e lutavam contra o imperialismo inglês. Uma pista está na idealização de Robin como alguém disposto a brigar contra um rei usurpador, atrás de unidade nacional, o que tem muito mais a ver com a realidade medieval escocesa que a inglesa", diz Knight.

Desconstruindo o benfeitor

Em busca do Robin de carne e osso, historiadores também questionaram as faces do mito. No ano passado, o acadêmico australiano Julian Luxford contestou o bom-mocismo do arqueiro. Examinando um volume do Polychronichon (uma enciclopédia de história e teologia com origens no século 14), ele deparou com anotações de rodapé feitas por um monge católico sugerindo que o fora da lei e seu bando não eram queridos entre os pobres e oprimidos. Até porque também seriam suas vítimas, não apenas os ricos. "Em vez de citar o herói revolucionário que conhecemos, a inscrição (veja na pág. 32) fala em como um fora da lei chamado Robin Hood infestava Sherwood e outras áreas da Inglaterra [há quem diga que ele agia também na floresta de Barnsdale] com seus asseclas. Trata-se da primeira referência histórica real livre de folclore. A literatura original a respeito dele não tem menções sobre roubar dos ricos para dar aos pobres, fala de um ladrão trabalhando em causa própria", diz Luxford.

De fato, o bandido só começa a ser descrito como altruísta na trova de 1475 ("As Aventuras de Robyn Hode"). Nela, Robin empresta dinheiro a um cavaleiro em desgraça, depois promete premiar o próximo viajante que passar caso seja pobre. Também se recusa a roubar dos mais humildes. Mas seu discurso não revela indignação contra o sistema draconiano de impostos ou contra a falta de justiça social. "Há registros de que mais de um Robin existiu, mas tampouco há evidência de que ele ou eles tenham sido mais que meros mortais, longe da lenda construída na imaginação popular", afirma Luxford. Sua descoberta alimenta ainda o debate cronológico. A anotação do monge trata do período entre 1294 e 1299, o que sugere que o bandido teria atuado durante o reinado de Eduardo I (1239-1307), não sob Ricardo ou João.

A escassez de lastro histórico dá espaço a teses como a do historiador John Paul Davis. Ele acaba de publicar um livro sustentando que Sherwood foi escolhida por Robin e seu bando como morada porque eles seriam templários. Viviam escondidos para se proteger da determinação papal de exterminar os membros da ordem de cavalheiros que caíra em desgraça depois de se transformar numa poderosa organização militar. Os templários foram dissolvidos no início do século 14 e o então monarca inglês, Eduardo II, não costumava persegui-los como os colegas do continente. Para Davis, o arqueiro era mais sofisticado que um bandido comum. "A perseguição aos templários fez com que milhares de homens se transformassem em fugitivos da noite para o dia. Conformavam-se em viver nos bosques da Inglaterra e, lá, mantinham o senso de organização militar e de orientação para o bem dos cavalheiros", diz o historiador. O revisionismo não poupou as preferências sexuais do herói. Tony Scupham-Bilton, historiador e ativista gay inglês, causou celeuma, em setembro, ao sugerir que o arqueiro teria sido inspirado em John Clawoe, poeta que lutou na Guerra dos Cem anos e namorou o colega William Neville. Para Tony, há pistas de homossexualidade no fato de o bando viver na floresta, isolado de mulheres.

"O simples fato de ainda haver estudos sobre Robin é mais relevante que a discussão sobre o que é falso ou verdadeiro. Os nomes dele e do rei Arthur são os únicos de existência histórica não-comprovada que estão no dicionário biográfico da Universidade de Oxford", afirma Luxford. Para Stephen Knight, a autenticidade está justamente na dúvida: "Ele não precisa ter sido de carne e osso. Sua sobrevivência como construção cultural que resistiu por séculos lhe garante existência. Nesse sentido, Robin Hood vive". E como.



"Assim que o galo começou a cantar

O dia começou a raiar

O xerife encontrou o carcereiro morto

E mandou tocar o sino da cidade"


"O xerife mandou vasculhar Nottingham

Tanto as ruas quanto os becos

E Robin estava na feliz Sherwood

Tão despreocupado quanto uma folha na árvore"

"Robin Hood e o monge" (1450) balada anônima


"Por volta dessa época, de acordo com a opinião popular, um certo fora da lei de nome Robin Hood, com seus cúmplices, infestava Sherwood e outras partes da Inglaterra com seus frequentes roubos"
Anotação monástica do século 14, parte da enciclopédia Polychronicum


"Aqui sob esta lápide / Jaz Robert, barão de Huntingtun

Nenhum arqueiro foi tão bom quanto ele / Chamavam-no Robin Hood

Fora da lei como ele e seus homens / A Inglaterra jamais verá outra vez"

Inscrição na lápide do século 18, mas datada de 1247

As faces de Robin
Figuras reais que inspiraram o mito

Hereward, o Exilado (1035-1072)
Líder anglo-saxão da resistência contra a invasão normanda da Inglaterra. Teria sido o maior articulador da oposição popular a William, o Conquistador, enfrentando com sucesso as tropas do rei até se exilar depois da derrota. Em Ivanhoé, Robin também se opõe aos normandos.

Eustácio, o Monge (1170-1217)
Religioso que trocou o hábito pela vida como mercenário e agente duplo. Ajudou o rei João I antes de apoiar a revolta de barões contra o monarca e oferecer seus serviços aos franceses. Como Robin, liberava as vítimas de seus assaltos que diziam a verdade sobre suas posses.

Fulk Fitzwarin ( ?-1258)
Aristocrata que teria se tornado fora da lei depois de perder título de nobreza e terras por causa de rusgas com o rei João, com quem conviveu na infância. Segundo reza a tradição, Fitzwarin vive como bandoleiro, escondido na mata, até recuperar suas posses. Em 1295 ganharia um título de barão.

William Wallace (1272-1305)
Herói nacional escocês, famoso por comandar a vitória sobre os ingleses na Batalha de Stirling Bridge, em 1297, parte das Guerras de Independência da Escócia. Após a derrota na Batalha de Falkirk (1298), viveu como fugitivo e também se disfarçava, a exemplo de Robin, mas acabou capturado e executado.



Xerife de cerimônias
O cargo que ocupava o arqui-inimigo do arqueiro sobrevive até hoje

Nada expressa mais o conceito de ironia: em meio à mitologia cercando Robin Hood, o único personagem de existência comprovada, além dos reis Ricardo, João, Eduardo I etc., é justamente o maior rival do arqueiro, o xerife de Nottingham. Embora tenha perdido atribuições e poder desde a Idade Média, o cargo sobrevive em pleno século 21.

O xerife, porém, acrescenta mistério à lenda. A figura do responsável pela manutenção da ordem nos condados ingleses (e de cuja lista de tarefas fazia parte a coleta de impostos e aluguéis) tem origem no século 11, mas a cidade de Nottingham só passou a ter xerife a partir de 1449. Eram dois, na realidade. E foi assim até 1835. Os condados tinham um representante do prefeito (eleito indiretamente ou biônico) e outro da comunidade.

Ambas as partes eram adeptas da filosofia de que apenas o medo de punições severas seria suficiente para impor o respeito à lei, o que, na Inglaterra, prevaleceu até meados do século 19. Mas se os arquivos do sistema judiciário revelam, porém, que já em 1835, um garoto de 13 anos foi enforcado por ter roubado roupas da casa onde trabalhava como empregado, imagine a realidade na Inglaterra medieval. Atrasos no pagamento de impostos (em moeda ou bens) eram puníveis com castigos corporais. Não por acaso, a instituição de um novo tributo foi uma das causas da Revolta dos Camponeses (1381), em que hordas deles invadiram escritórios dos condados para queimar arquivos de contabilidade.

Xerifes estavam longe de ser santos e há registros de que, no século 12, os monarcas britânicos investigavam denúncias de corrupção e enriquecimento ilícito por parte dos ocupantes do posto. E se Nottingham ganhou um xerife oficial apenas no século 15, historiadores lembram que o condado de Nottinghamshire contava com um, o que certamente ajudou a criar a figura de um vilão para as aventuras de Robin Hood.

Quando a monarquia britânica foi relegada a um papel simbólico, os xerifes foram gradativamente defenestrados. Nottingham, por causa do arqueiro, é uma das raras exceções. Seu xerife serve como garoto-propaganda para o turismo; volta e meia participa de convenções e outros eventos para atrair visitantes, como receber grupos de jornalistas internacionais à capital.

Até a inauguração de lojas na cidade costumam contar com o homem da lei como atração, invariavelmente no traje negro imortalizado no cinema. "Na verdade, passa-se boa parte do tempo explicando que, apesar da má fama de alguns antecessores, os xerifes são pacíficos e do bem. Temos um compromisso com a promoção de Nottingham", diz Ali Asghar, que ocupou o cargo entre 2002 e 2003. O titular do posto, porém, ainda precisa zelar pela ordem. Leon Unczur, xerife atual, no ano passado ameaçou multar quem desobedecesse à proibição de alimentar os gansos selvagens que habitam um dos parques da cidade. No caso do estômago delicado das aves, alimentos processados poderiam ter o mesmo efeito que flechadas dos fora da lei.


Saiba mais

LIVROS
Robin Hood, James Clark Holt, Thames & Hudson, 1982
Sem edição no Brasil, ainda é o melhor ponto de partida para conhecer o assunto.

Robin Hood: A Mythic Biography. Stephen T. Night, Four Courts Press, 2005
Essencial para entender a formação do mito, também sem tradução.

As Aventuras de Robin Hood, Howard Pyle, Martin Claret, 2009
Uma das últimas edições no Brasil. Tem ilustrações originais do autor, do fim do século 19.


SITES
www.boldoutlaw.com
Portal de aficionados. Tem várias informações sobre o debate histórico em torno do herói.

www.lib.rochester.edu/camelot/rh/rhhome.htm
A Universidade de Rochester (EUA) mantém um projeto de estudos sobre Robin e outros bandidos medievais. Aqui é possível conhecer as baladas originais em inglês arcaico.

fonte : http://historia.abril.com.br/gente/busca-robin-hood-565163.shtml

domingo, 15 de agosto de 2010

Herança maldita
Países que passaram por ditaduras vivem um dilema: punir ou perdoar os criminosos do passado?
Maria Paula Araújo

O que fazer com a herança política repressora de um país? Inúmeras sociedades passaram de regimes ditatoriais e arbitrários para regimes democráticos nas últimas décadas. A partir dos anos 1970, diversos países viveram essas experiências: Portugal e Espanha, no sul da Europa; Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile, no Cone Sul; os países socialistas do Leste Europeu e nações africanas, como a África do Sul.

Procedimentos jurídicos e políticos acompanham a transição democrática. A forma como o Estado e a sociedade lidam com seu passado autoritário compõe o que se convencionou chamar de “justiça de transição” ou “políticas de verdade e justiça”, que se resume em direito à memória, reconciliação nacional e reparação das vítimas. De acordo com a história, a cultura e a força de diferentes grupos sociais de cada país, são tomadas medidas específicas. Na Nicarágua, por exemplo, esse processo se deu pela guerra civil; na Argentina, pelo desgaste da ditadura, após a Guerra das Malvinas (1982); na Espanha e no Brasil, pela negociação entre as elites políticas.

Esses processos estiveram completamente ausentes na Espanha, devido à memória da Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Para aquela sociedade, tanto o Movimento Nacional – do qual fazia parte o futuro ditador Francisco Franco (1892-1975) – quanto as milícias armadas da Frente Popular cometeram excessos. Seria melhor, portanto, esquecer o assunto.

A África do Sul representa outro tipo de transição. Após o fim do regime de apartheid, em 1994, foi instalada a Comissão de Verdade e Reconciliação, em que as vítimas poderiam denunciar o que haviam sofrido durante o período da segregação racial. A Comissão não tinha como objetivo punir os culpados, e sim a declaração dos crimes, numa política mais voltada para a apuração da verdade do que para a execução da justiça. O Brasil é um dos poucos países que não criaram uma Comissão de Verdade após o período da ditadura militar (1964-1985). Atualmente, os Ministérios da Justiça e dos Direitos Humanos têm projetos nessa área. (...)

fonte: http://www.revistadehistoria.com.br

sábado, 31 de julho de 2010

3 histórias de deuses antigos que aprontaram muito – Superlistas

Aproveitem esta matéria interessantíssima sobre os problemas de relacionamento entre os deuses nas mitologias : Indiana, Nórdica e Egípcia.
Bons estudos !!!
André Luiz.



3 histórias de deuses antigos que aprontaram muito – Superlistas

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Santo guerreiro

Santo guerreiro
Muito popular no Rio de Janeiro, São Jorge se destaca nas festas religiosas e políticas da cidade desde o século XVIII
Beatriz Catão Cruz Santos

São Jorge está em alta no Rio de Janeiro. Desde 2002, o dia do santo – 23 de abril – é feriado em todo o estado, sendo comemorado com muita festa. No Centro da cidade, há missas, salvas de canhão, banda de música, barraquinhas e batucada. Nos bairros de Campo Grande e Bangu, por exemplo, os fiéis saem em cavalgada pelas ruas. Em Madureira, a escola de samba Império Serrano organiza carreata e depois uma feijoada na sua quadra.

Mas a participação do santo guerreiro em celebrações religiosas vem de longa data, ainda no reinado de D. João I (1385-1433), o fundador da Dinastia de Avis (1385-1581). Nessa época, foi instituída a festa de Corpus Christi (Corpo de Deus) em Portugal e São Jorge tornou-se o patrono do país, em substituição a São Tiago (de Castela), passando a figurar nas procissões lusitanas a partir de 1387. Em 1422, outro fato contribuiu para a popularização do santo: o monarca cria a Casa dos Vinte e Quatro, uma instituição por meio da qual os artesãos tinham alguma representação política na Câmara Municipal de Lisboa. D. João I fora alçado ao trono por um movimento que os incluía, e buscava reconhecer este engajamento. Entre eles havia os profissionais do ferro e fogo – como os ferreiros e os serralheiros –, que se organizariam numa irmandade sob a proteção de São Jorge. Portanto, desde D. João I, São Jorge era relacionado, simultaneamente, à monarquia e aos artesãos do ferro e fogo.


Aos poucos, a celebração religiosa, surgida na Idade Média, tornou-se, sob o patrocínio da monarquia, uma das mais solenes festas do mundo português no século XVIII. Os preparativos começavam com a Câmara Municipal anunciando publicamente a data da festa, que deveria ocorrer sessenta dias após a Páscoa. Mas a data nem sempre coincidia com o calendário cristão. A instituição também nomeava quem carregaria as varas do pálio – sobrecéu portátil com varas que é conduzido em procissões, caminhando debaixo o sacerdote, que leva a custódia –, determinava a limpeza das ruas, o trajeto e o próprio cortejo, seus participantes e a ordem do desfile. Na hora da festa, danças, bonecos gigantes e representações teatrais subvencionadas pelos artesãos se misturavam à procissão, que partia da igreja matriz e percorria as ruas centrais de cada cidade. No governo de D. João V (1708-1750), as manifestações mais populares foram sendo excluídas ou reorganizadas, de forma a tornar a festa mais solene e hierárquica. (...)

fonte : http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=3162